domingo, abril 08, 2007

o estado da nossa sociedade...

Não tenho filhos e tremo só de pensar.
Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estãoinvariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornosparticularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. Acriança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com asbarreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis. E um exército de professores explicadores,educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida mas construída com sucessos pessoaise profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para oinfinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho,os restaurantes de sonho. Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte noProzac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera umainsatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço dehumanidade. Não deixa de ser uma lástima. Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não éa excelência, mas sim a felicidade!

Texto de João Pereira Coutinho

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